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Mostrando postagens de junho, 2019
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         DEFINIÇÃO Ele não entende muito algumas coisas que ela faz ou diz. Mas ele a ama tanto que, meneando a cabeça simplesmente quer dizer: - Eu não consigo entendê-la quando faz isso, mas eu a amo demais pra tirar dela qualquer pequena coisa boba que faz com que ela seja tão especial pra mim. Entre as pequenas coisas bobas que ela faz e diz, estão as extraordinárias. Dessas eu não posso sequer imaginar descartar ou nem adiar por algum segundo, pois me alimento e me construo com o sorriso dela. Quero permitir que ela consiga cada vez mais praticar sua felicidade diária, realizando seus feitos heroicos em coisas subliminares que nem todo mundo entende e sendo ela mesma em todos os detalhes de sua vida. Quero beijá-la enquanto chora e sentir o gosto de suas lágrimas. Nesse momento toda sua fragilidade estará comigo em nosso longo beijo e poderei parar de beijá-la quando eu finalmente conseguir que ela prove também as minhas lágrimas. Poder...
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                                                                     CONSTELAÇÃO Aquela ruindadezinha que todo mundo tem... Às vezes quando acorda... Às vezes quando não dorme... Às vezes quando come demais... Às vezes quando não come... Às vezes quando tem muita gente em volta... Às vezes quando tem solidão sobrando... Não damos os mesmos nomes para tudo o que sentimos. Mas nos apegamos às nossas sensações. E muitas vezes nos acostumamos a sentir. Também a não sentir... Dar valor. Desprezar o valor... Querer uma presença. Querer estar ausente... Até seguir vivendo com essa constelação de sentimentos. Isso é bem ser humano! O problema sempre será o buraco negro no espaço da consciência. Espaço que ficamos a pensar muito em tudo. Nos paralisando, sem movimento. Inércia total da alma. Um vácuo...
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                                                                        O baio Manhã nublada. Todos os pinheiros pareciam mergulhados em fumaça branquinha. Tudo em volta da casa parecia meio apagado. O muro de pedra no fim do pasto, quase nem dava pra ver. O cachorro passou a noite latindo e ninguém sabia o motivo. Mas tinha um curioso que deu muitas espiadas pela fresta da cortina durante a noite. Ele queria mesmo saber se o baio tinha voltado. Foram tantas histórias que ouviu. Tinha que ter certeza. Algumas noites sempre o  faziam lembrar e corria para aquela caixa. Era tão velha que até soltava pedacinhos da tampa! Ficava sempre escondida, mas ele a visitava sempre. Naquela manhã cinza e meio branca, enquanto a vó tomava uma xícara de café, passava ele rapidinho esbarrando na cadeira....
                                                       Cerebelo Na porta da sala os cochichos habituais. Antes da prova de biologia se falava de tudo. Quase tudo, que tinha ou não importância, que era ou não assunto da prova. Como variedades do jornal ou revistas de fofoca. Vez ou outra algo divertido ou animado e muitas outras vezes, assunto pra não ser considerado relevante. Mas, soltei uma pérola espontânea e totalmente verídica. Construí sem querer um palácio de memória. E todas as moças que divertidamente me ouviram, também puderam passear naquela lembrança. Ao final do período a reunião solene pra oficializar o disse que disse. Todas comentando sobre como lembraram da questão... É por que na porta da sala eu contei que quando estava estudando, olhei para a cachorra e falei em voz alta: -Se eu tirar o cerebelo da Loly, ela cai...
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 Para Beethoven quando toca "Uma melodia de lágrimas" Então minha alma insiste e por quê? Faz brotar coisas que não quero. Sendo melodia pura eu bebo bem devagar para sentir bem o gosto. Mas fica salgada com o cair de duas ou três lágrimas. O amargo de ânsia é quando não perdoo e não vejo o fim da taça. E produz. Escuro. E cor demais, ás vezes. Eu fujo. Na fuga da caminhada eu derramaria bastante no gotejar lento dos meus poros. Caminho ou corro, vagar ou não. Me livro parcialmente sempre. Quando vejo está de volta e me prende. Como roupa molhada me gruda e sinto meu cheiro. Não desgruda de mim, não perdoo. Quem dera eu, me erguendo numa dobra de tempo conseguisse, por alguns segundos, te ver. Saber o segundo que de ti saiu esse som tão belo. Absurdo da primeira nota, que velocidade me toca, tão profundo... Nem consigo eu juro... Com tua música sempre choro. Meu choro traz o que não quero de mim e o que mais desejo em mim. Não perdoo te amar de tão ...
        Enigmas Faciais -Pára de fazer esse barulho! -Não posso, tô comendo cereal, vai doer se eu engolir inteiro! -Coisa chata, pelo menos fecha a boca pro barulho ficar menor! -Pode deixar, amanhã eu como as tuas bananas que não fazem barulho! -Coloca a tigela na pia! E num movimento meio exibido, pegava a mochila pendurada na cadeira, colocava uma das alças no ombro e a tigela rapidamente dentro da pia. Movimentos desastrosamente perfeitos, como um regente de orquestra. -A mãe disse pra não chegar tarde, amanhã a gente vai lá na vó! E antes de sair deu uma passada no espelho do corredor e ouvindo a recomenda sacudiu seu cabelos finos e curtos. Dando uma ajeitada na blusa fez uma careta que escondia os dentes grandes, piscando um olho só. Na pressa de pedalar saiu sem fechar o portão e acelerava pra fazer vento forte no rosto. Tantas folhas caiam das árvores, que na aventura de pegar algumas, soltava apenas uma das mãos e se esticando, tr...
   Janela de trás Olhava atentamente, nem piscava. A grama estava branquinha da geada e ela embaçava o vidro quando respirava encostando a testa na janela. Preferia sempre a de trás. Tinha uma árvore de tronco gordo que pareciam, de longe, muitas pernas enroladas umas nas outras. Como suas raízes vultosas se misturavam confusas, não dava pra saber o que era raiz e o que era tronco. Esconderijos perfeitos em suas dobras guardavam muitos segredinhos e mistérios desconhecidos aos desatentos. Era a mais bela de todas as árvores da redondeza. Tantos ralados e arranhões deixados nas pernas magrelas que já se conheciam por todos os sinais. Mas ainda que frondosa, deixava passar por ela os primeiros raios de sol da manhã. Eles com pressa beliscavam o chão e brincavam concorrendo passagem pela abundancia de galhos e folhas. Depois de desenhar um coração numa rodela de bafo, abriu a janela de trás para sentir o cheiro do amanhecer. Mas a curiosa queria mesmo é sabe...
                                                                      Armário podre -O que vai acontecer com o armário velho no fundo da garagem? -Não sei, teu pai quer deixar tudo limpo! Tem que guardar a mudança do teu tio na garagem por enquanto, só até ele se ajeitar. Os dois se olharam com o disfarce mais fajuto que tinha. Era uma cara de: "não tá acontecendo nada não". Mas a mãe logo pegou no ar a malandragem: -Por que vocês querem saber daquele armário podre? O que vocês tão aprontando dessa vez? -Ah é é é´nada! Nadinha! -A mãe olhou com cara de quem já conhecia o repertório dos dois e franzia a testa batendo os dedos na mesa, fazendo um barulhinho de pocotó. Enquanto os dois, saindo de fininho resmungavam: - O que a gente vai fazer? -Não sei, eu te disse pra botar em outro lugar! -Eu não s...
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    PEDACINHO DE TEMPO Lá no fundo do quintal tava ele. Encolhido com susto no olhar. Ninguém sabia, então ele se espremia sem barulho nem movimento, ao lado do montinho de telhas. Escondido numa covinha no chão que não batia chuva. Foi só esse canto que ele achou quando fugia. Via de lá todo reboliço da casa, mas não era visto. Viu o guri saindo às pressas mastigando e na corrida entrava no carro do pai de manhã cedo. E o tempo, agora quieto, pedia sono de novo. Quando acordou, escutou o guri mais de perto. Aquela falaçada diferente com roncos estranhos o assustava. Levantou só a cabeça quando viu a mexida no monte de telhas. Se não tivesse tão cansado e com tanta fome, poderia até ensaiar um rosnado pra assustar aqueles dois. Seria pedir demais? Depois de se encontrar na própria casa fechada e sem ninguém! Nem comida, nem água. E ele pensava que era amado! Correu por tantos lugares e foi tão assustador não ter um cuidador. Mas encontrou aquele portão ab...
                          Almas verdes Até podia ver a ponte quando olhava. Tinha que subir naquela pedra enorme e pra facilitar a vida,  aqueles baraços que cresciam exibidos, bem naquela moita que se formou, nem se sabe quando, bem em cima da pedra. Era um abraço da terra lá por cima que começou a criar toda vida que passava por ali. Era tão pouca terra e abrigava tanta vida... Um pé de espinheiro, umas porções de gravatá e um tipo de baraço forte pra chuchu. Praticamente um quipá vegetal. Estranho né? A pedra não era não, mas a vista que se tinha lá de cima, era sim a favorita de muita gente. Mas não dava pra entender aquilo acontecendo. Tanto cuidado de uns e tanto desprezo de outros. Olhar sem ter nenhum poder de transformar. E tudo sendo transformado sem quase ninguém olhar. Nessas horas de irritação se pensa em solução Se não puder trazer todos os olhos para a imagem, então pode levar a im...
              Vistoso e elegante ritual Que animal seria tão apegado à casa passeando indiferente cheio de sua empáfia. Ainda com ar de desdém se esfrega em tudo mas tem seus lugares escolhidos para enfiar as garras. Traz consigo todos os choros, um pra cada ocasião e preguiça nos olhos piscando muito devagar. Contrariada aciona dispositivos de som pra conseguir o que quer. Um dialeto propenso, sempre nada ingênuo. O sol é seu amigo que aquece e quase um alimento, que a faz ronronar esticada depois do banho de língua. Pende a cabeça quando escolhe um lugar alto pra dormir, só pra mostrar que tem todos os lugares em seu domínio. A barriga vazia sinaliza sempre o começo do espetáculo. Jamais deixa o exagero de sua elegância e nem se importa com sua estirpe: uma gata vira-lata resgatada num cano de uma obra, em puro desespero que um coração amoroso trouxe pra casa. Agora domina o ambiente e passeia como fosse os jardins de um palácio. ...
             Bolinho O bambuzal morro acima, balançava forte. Tão simples... Não sei como ao olhar pra eles, parece que falaram comigo. Unânimes, balançavam sempre juntos, sem a menor desavença. Como famílias e amigos cantando diante das velas acesas do bolo. Sincronizados, ocasionalmente deixando cair alguma palha, que era a folha enfraquecida e amarelada, por chegar ao fim e não mais concluir sua função de praticar a fotossíntese. Quando olhei as amarelas, uma aqui outra ali, num instante lembrei da mãe. Ela voltou a frequentar a escola depois dos filhos crescidos. Aprendia coisas que a deixavam satisfeita, falando com ar de doutora sobre seus novos conhecimentos. Nem ligava para as risadinhas e piadinhas, mas só por causa do amor que sentia pelos filhos. -Esse bolinho tá uma delícia mãe! -É a clorofila que faz as folhas serem verdes, clorofila, bolinho de clorofila. -Não é fotossíntese? Bolinho de fotossíntese? E muitas risad...