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Liberdade Eu vejo uma cena e a descrevo. Eu vejo um homem caminhando e eu faço uma análise. Analiso conforme as informações que obtenho visualmente. Eis o que eu vejo: Vejo um homem numa atividade diária. Ele está tranquilo, sorri e caminha com serenidade. Ele saúda com simpatia as pessoas que encontra. Sua atividade cotidiana o faz pensar que está na mais nobre atitude. Sua tranquilidade demonstra todo o controle que ele exerce ao prosseguir em seu desempenho. Ele está certo de que está totalmente certo. Coitadinho. Ele não consegue sequer imaginar o mal que está praticando. A cena que descrevo é um homem que leva um pássaro para passear dentro de uma gaiola. Em seu entendimento medieval e ultrapassado ele pensa: Eu amo essa ave! Eu cuido dela. Eu descasco laranjas e dou para ela. Também dou bananas cortadas para ela. Procuro variações de grãos para que esteja bem nutrida. Cubro a gaiola e a protejo para que não fique agitada. O sol faz muito bem a ela, então a...
Apenas fale parte III A confessora majestosa nada disse. O desferrar com brisa perfumada ao redor, seu cheiro de vida, dava remissão na floresta com silêncio, sem dor, nem som e nenhum conselho sequer. Embrenhou-se a bela Chloe de volta e seus cabelos acobreados, foram agarrados a finos e quebradiços galhos. Parou para soltar os gravetos dos cabelos e olhava para cima sentindo-se tão criança. Surpreendeu-se com seus saudosos e sonoros risinhos infantis. Balançando a cabeça, suspirava com sorriso em seus lábios finos e dentes pequenos que estavam a saborear a simplicidade de um vento fresco e impeliu-se a um abraço. Abraçou uma árvore qualquer como se abraçasse a todas, sentia abraçar a todas através de uma. Entendeu a causa de sua total abominação pelo ódio que antes havia sentido, rejeitava intensamente por não querer dá-lo a ninguém e o anseio por livrar-se daquele ódio fecundou o desejo de entender...
Apenas fale parte II Os sussurros que ouvia, sempre a fizeram parronar consigo secretamente por não saber decifrá-los. A construção de um sorriso, embuço, trabalhado ardentemente para si mesma, constante ciência de não mostrar quem era. Um parecer a cercava para proteger a fragilidade da vulnerável alma doce que a trouxe ao mundo. Minha doce alma elã sempre a fingir. Provocativa com olhar de sentimentos profundos. Confissões do espírito aflito. Confissões do pensamento vago. Confissões dos sussurros na floresta que crescia viçosa e indomável dentro da mente ávida. Se cada uma delas à sua frente deliberasse voz, como suportaria? E, frente às enfileiradas e muitas desordenadas, finas e grossas, cores e formas todas distintas, frutos diversos, espinhos ou não, frutos ou não, remédios ou venenos, detrimentos ausentes ali, multidão desejando ser povo. Apenas a floresta. Não satisfeita com pa...
Apenas fale parte I Tudo que a cercava tinha peso de alguma história vivida. Ela admirava pequenas cicatrizes nos móveis, cicatrizes nas paredes e no chão. Sentia sempre a sensação de que o passado estava ali, impresso e negava-se a cobrir com tinta, algo que a fazia sentir, qualquer que fosse a história do passado  e suas vozes gritantes nas marcas que via. Na verdade, os pensamentos dela criavam uma imensidão de possibilidades e ela amava ser assim. Parava para ouvir uma imagem falar e sentia. Ela não admitia modernidades como se tivesse nascido no século XVIII. Preferia mobília com rigidez medieval e o encanto da nogueira polida com azeite e cera,  que exibia seus provocantes torneados. A luz do amanhecer que invadia o quarto, revelando seus contrastes a surpreendiam sempre. E numa manhã... Abriu os olhos num demorado despertar e não moveu a cabeça. Sem ninguém ao seu lado, acompanhou com os olhos ainda preguiçosos, o raio de sol que entrou por entre as cort...
NOVAS LINHAS Poderias ter me trocado por outra pessoa! Seria bem mais fácil pra você! Eu poderia ter visto algo verdadeiro em ti. Ver a tua luta pelo amor de alguém. Tua ausência total de paixão que me esvaziou. Faltou tudo entre nós. Não sou tão moderna assim pra viver sem amar. Preciso tanto de sinais! Sinais constantes de troca de olhares! Provas de um amor vivo, mútuo Não basta viver dia após dia. Quero amar mais a cada acordar! Ver alguém que esperava meus olhos abrirem. Só pra dizer: eu te amo mais que ontem. Eu errei. Não há em ti capacidade de ver a beleza da vida. Espero que não se importe. Mesmo assim agora até minhas palavras são livres. Tens um egoísmo autêntico. Fingir sofridão por causa do desconforto de não ter uma servidão constante que te enche de falso controle, francamente isso é fraco demais, até pra ti. Escrevo novas linhas da minha história. Agora comigo mesmo. Já que você não se importou. Agora eu me importo mais...
Quase uma mãe Alguma insanidade temporária? Algum esperar sem saber se deve? É como não saber o horário do ônibus e ir para o ponto com a certeza que uma hora vai passar. Uma hora passa! Um asterisco para: FALTA DE ORGANIZAÇÃO TRAZ PERDA DE TEMPO. Nem sei porque dar tanto destaque para isso, é tudo tão óbvio. Desejo um carro que não vá para trás na paradinha da subida da ladeira. Mas agora não tenho. Estou parada absurdamente constrangida pelo medinho que me impediu de subir uma insignificante ladeira. Mas que bobagem meus amigos! Onde foi parar minha coragem? Aquela avassaladora? Essa que tenho aos montes? Nem consigo ver através do vidro traseiro. Está tão embaçado e eu estou me comportando como se fosse natural ter um medinho que deixo ficar maior, assim como se não fosse nada! Absurdo! Quero um carro automático! Quero um Carro automático! Eu já tinha vencido isso, mas agora, há uma aversão tão constrangedora que eu nem sei se terei coragem de publicar isso. Pre...
                      O sapateiro da rainha As plantas da varanda estavam muito viçosas e pareciam saborear a brisa da tarde de primavera. O baraço espinhento esparramado pelo chão tentava subir pela treliça e estava coberto de botões das novas flores, mas a rainha ainda não sabia que flores eram aquelas e o motivo de serem especiais.  Ela recebeu com alegria aquela planta, dada por seu leal amigo, o sapateiro Tom que inclusive escolheu o lugar e a plantou. Quando ele veio trazendo aquela trouxa de pano segurando a terra e dois baraços pendurados, mal podia conter o sorriso. Suas calças marrons um pouco curtas, deixavam aparecer suas meias pretas e os sapatos vermelhos feitos de couro. Admirando o perfil do jovem entusiasta, a rainha logo percebeu as marcas de terra nos joelhos do amigo. O sapateiro Tom era peculiar: cantava e falava com suas...